DESAFIOS E PISTAS DE AÇÃO PARA A VIDA RELIGIOSA E A PASTORAL AFRO DA AMÉRICA LATINA E CARIBE: INTERROGAÇÕES, DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS E NOVOS HORIZONTES*
Clovis Cabral, SJ**
“A negritude é um dom de Deus!”. Inspirei-me iniciar esta nossa conversa com essa frase, ao ler a “Mensagem Final do Vº Seminário Vida Consagrada Indígena”, organizada pela CLAR e realizada em Quito, Equador, entre os dias 27 e 29 de setembro deste ano. Logo, no alto da mensagem, lemos: “Amo o que tenho de índio!”, da autoria de Monsenhor Leónidas Proaño. Falecido a 36 anos. Foi bispo de Riobamba, (Equador) durante 31 anos. Dom Proaño foi ativista dos direitos humanos, bispo dos povos indígenas, bispo dos pobres, pastor, profeta e um dos “Padres” da Igreja na América Latina. Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 1986.
A exemplo de Monsenhor Proaño, dom Gilio Félicio, foi um dos poucos bispos negros, que no Basil, assumiram sua negritude e converteram-se em ativistas da luta antirracista.
“(...) [Na América Latina e no Caribe], “o ativismo negro existe por aqui desde que o primeiro africano e a primeira africana puseram seus pés (...) para trabalharem coercitivamente como escravizados, nas lavouras. E não foram só revoltas, quilombos, associativismo e movimentos populares; foram também ações diárias que indicavam percepções políticas, sonhos, projetos, pesadelos, apostas, riscos, necessidades e formas de sobrevivência. No entanto, o racismo estrutural continua presente, e a repressão do Estado contra pessoas negras não arrefece. A frase ‘não consigo respirar’ funciona como metáfora e realidade. Metáfora da sensação de opressão experimentada cotidianamente por pessoas negras. Realidade (...) [de um continente] que pratica o genocídio duplo das populações de baixa renda e sobretudo negras: a morte física e a tentativa de assassinar o direito à memória. Uma inversão da metáfora seria ‘não queremos respirar mais’ – ver, reproduzir, silenciar, ouvir, sentir, traduzir – ‘o racismo e suas formas de exclusão social”[1]
Quando, inspirados por Monsenhor Proaño ou Dom Glio Félicio, afirmamos “nossos passos vêm de longe”, não estamos proclamando uma frase, ou um slogan de efeito meramente midiático, destinado a ser replicado nas redes digitais, porém destituído de densidade histórica. De fato, centenas de homens e mulheres, ainda hoje, testemunhas vivas, ao longo desses 524 anos de história, nos precederam, lutaram e criaram as bases para aquilo que está como fundamento do nosso credo político-pedagógico: “Outro Mundo é Possível”. Evocamos suas memórias para nos manter firmes e perseverarmos como peregrinos e peregrinas de esperança.
“A negritude é um dom de Deus!”. Esta frase repetida como um “mantra” por Dom Gilio Félicio, quando bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia vai ajudar-nos, repito, no início desta nossa conversa. Salvador, nomeada a Nossa “Roma Negra”, é a cidade com a maior população negra do Brasil e berço das culturas afro-brasileiras presentes em todo o território brasileiro.
“A negritude é um dom e Deus!”. Essa frase é na verdade um paradigma teológico-espiritual, e pedagógico-pastoral e traduz de forma clarividente de onde viemos, quem somos e o que sonhamos. Este paradigma teológico-espiritual, afirma também o fundamento da vida religiosa e da Pastoral Afro-americana e Caribenha.
Nós, Agentes de Pastoral Negros(as), nós militantes e ativistas da Pastoral Afro-americana e Caribenha, participamos dessa grande articulação continental, porque fizemos uma (re)descoberta e queremos aprofundá-la: Nossa Negritude é um dom de Deus! É uma experiência bíblico-evangélica e eclesial de Deus. Ser negro, ser negra é lindo! É gostoso ser negro(a), é prazeroso ser negro(a)!
A Negritude é uma resposta à pergunta pela nossa identidade mais profunda: Quem sou eu? Quem somos nós? De onde viemos? Para onde queremos ir?
Uma paradigmática e vigorosa definição do conceito “Negritude”, se encontra no Texto Base da Campanha da Fraternidade, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no ano de 1988, quando se celebrava os 100 anos da “abolição da escravidão no Brasil”. No texto os bispos afirmam:
“... um dos pontos mais importantes nesse processo é, portanto, para a comunidade negra e para os demais, a aceitação positiva e plena da negritude, do ‘ser negro’. É nessa identidade que o negro se situa diante de si mesmo e dos outros. Sua humanidade passa por sua negritude. Não assumi-la, é negar-se a si mesmo. Além disso, à identidade pessoal é preciso somar-se a identidade de povo, com suas características próprias. O que de fato identifica o povo negro situa-se muito além da cor da pele. A negritude encarna toda uma história passada na escravidão, vivida individual ou coletivamente. Encarna também toda uma cultura de raízes fincadas na longínqua Mãe -África, mas também recriada no cadinho da escravidão, na luta pela libertação e na teimosa busca da terra prometida. Esta negritude é uma realidade concreta, mas também símbolo e mística, pois representa a esperança do futuro feliz para os negros e sua comunidade.”[2]
A Negritude é, pois, uma responsabilidade, uma filosofia (pois envolve uma cosmovisão – “olorumvisão”, “zambivisão”), é um modo..., um jeito de amar, de viver, de orar, de trabalhar, de sonhar, de fazer política, de celebrar, de coordenar, de decidir, de fazer escolhas, de tomar decisões...; é um jeito de ser, de assumir a vida!
Ser negro, ser negra não é somente, exclusivamente, ter a pele preta, ser negro, ser negra é uma “opção política”, uma “atitude política” (política no sentido de “pensar” um “Sentido” para a vida e orientado(a) por esse “Sentido” intervir na “polis”, na cidade, no mundo) ...; é ser cidadão, ser cidadã!
Ser gente: humanizar-se; “ser mais”; crescer, descobrir e (re)elaborar uma identidade negra positiva[3] é uma tarefa política! Não no sentido de “que tudo é político”, (partidário), o que seria um “reducionismo”, mas no sentido de que tudo, todas as coisas, todos os eventos histórico-humanos possuem uma dimensão política.
A elaboração de uma identidade, sua (re)descoberta, seu aprofundamento, neste sentido é uma tarefa política! E é bom lembrar que a política (no sentido aqui utilizado) é fundamentalmente a esfera do poder e do direito.
Por isso é um direito humano ter uma identidade e um dever, lutar para ter o poder de conquistá-la e mantê-la viva!
Ter identidade é fundamental, construir saudavelmente sua identidade é um direito...; é condição indispensável para crescer, amadurecer, ser mais! Negar, obstaculizar esse processo de (re) construção de uma identidade negra positiva é um crime[4], teologicamente é um pecado![5]
Ser negro, ser negra, é uma “conversão”. Assumir a negritude é um processo de conversão. A “negritude”, ter “consciência negra” é uma experiência existencial totalizadora, ela é ao mesmo tempo processual e relacional. Eu a experimento na minha relação com Deus e na minha relação com meus irmãos e irmãs. Neste sentido a negritude é um dom de Deus! Em todo esse processo de (re)construção teológico-espiritual da identidade positiva, eu experimento a presença amorosa de Deus Pai e Mãe. Como experiência de (re)construção da identidade negra positiva, é sempre libertadora! Viver a experiência libertadora da (r)construção da identidade, como autêntica experiência de Deus é um Exercício Espiritual, que pode e deve ser acompanhado pela “escuta” e pelo “discernimento” no seu duplo alcance pessoal e comunitário.
Concluo essa primeira parte desta minha conversa (charla, ponência), com uma admoestação do Papa Francisco escrita na Encíclica Laudato SÍ:
“Não é possível empenhar-se em coisas grandes, apenas com doutrinas sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (Laudato Sí, nº 216)
Com esta reflexão situo a nossa primeira e primordial tarefa, o nosso primeiro e primordial desafio: O APROFUNDAMENTO BÍBLICO-TEOLÓGICO DA EXPERIENCIA DA NEGRITUDE COMO “DOM” DE DEUS, ISTO É, A EXPERIÊNCIA DA NEGRITUDE COMO EXPERIÊNCIA (TEOLÓGICO - ESPIRITUAL) DE DEUS. EXPERIÊNCIA ESSA QUE TEMOS FEITO DURANTE ESSES ANOS DE CAMINHADA E QUE DESJAMOS SEGUIR APROFUNDANDO.
COMO? Não tenho receitas, somente algumas intuições, que compartilho com vocês:
- Organizar um trabalho sistemático, metodologicamente inculturado e criativamente realizado, de estudos dos “três votos” (castidade, pobreza e obediência) cotejando com as tradições culturais africanas e afro-americanas, existentes em nosso vasto continente.
- Organizar um trabalho sistemático, metodologicamente inculturado e criativamente realizado sobre as diversas “etapas de formação” (aspirantado, noviciado, juniorado, estudos filosóficos e teológicos, estudos especiais...), desde o ponto de vista do “paradigma da iniciação” fundamento pedagógico nas culturas afro-indígenas presentes em nosso vasto continente.
- Organizar uma “Escola de Formadores(as)”, com especial atenção nas diversas e plurais tradições culturais e religiosas afro-indígenas presentes entre nós.
- Conceber e implementar um “Projeto Permanente” que organize “Seminários de Formação” sobre a África que é “singular e plural”. Esses Seminários deveriam levantar a pergunta: “Quando dizemos África, sobre o quê mesmo estamos falando?” (Ver a contribuição da monumental “História Geral da África” (UNESCO); Mensagem do Papa Paulo VI “Africae Terrarum” (1968); Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Ecclesia In África” (João Paulo II, 1995); Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Africae Munus” (Papa Bento XVI,2011).
- Para celebrar o “Jubileu de Esperança” no próximo ano, organizar um grande Seminário sobre o tema da “INCULTURAÇÃO” (“Viver a fé nas diferentes culturas”). A questão teológico-pastoral da inculturação, talvez seja um dos temas mais decisivos para os próximos passos após este “Sínodo da Sinodalidade”. Se partimos da afirmação do Documento de Santo Domingo em seu número 13: Toda evangelização há de ser, portanto, inculturação do Evangelho” e que a “inculturação do Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo” (Lumen Gentium, 8). Qual o legado de tais afirmações? Um balanço das diversas compreensões sobre o enunciado teológico inculturação. Do ponto de vista da Vida Religiosa Afro e Indígena e da Pastoral Afro-indígena: o que foi feito até aqui? O que podemos fazer? Por onde caminhar?
Outros desafios: 1) O novo perfil dos candidatos a VR (Os rostos contemporâneos das juventudes latino-americanas e caribenhas); 2) A Década dos Afrodescendentes entre os anos 2015-2024 (Resolução da ONU 68/237 da Assembleia Geral), coincide com uma década perdida na região onde habitamos. O tema da pobreza e da degradação ambiental se impõe; 3) O desafio do “envelhecimento” em nossas sociedades e na vida religiosa. Que repercussões tem entre nós?
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* Encuentro Virtual da Comisión para la Vida Religiosa Afro (CLAR),17 e 18 de octubre de 2024. Tema: Desafios y Pistas de Acción para la Vida Religiosa y la Pastoral Afro de América Latina y el Caribe: VER – Despertar Miradas y JUZGAR – Intuir Presencias y Actuar – Tejer Sueños
** Clovis Cabral, é brasileiro (baiano) e presbítero jesuíta. Teólogo Afro-brasileiro e militante (Ativista) da Pastoral Afro-brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Pertence a membresia do Instituto Mariama – Associação de Bispos, Padres e Diáconos Negros Católicos (IMA). Pesquisador na área das relações entre a Igreja Católica e as Religiões Afro-brasileiras. Atualmente trabalha como “educador social” na Rede de Justiça Socioambiental da Companhia de Jesus (Jesuítas), numa parceria entre o Cento de Estudos e Ação Social (CEAS) e a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP)
[1] GOMES, Flávio dos Santos. Enciclopédia Negra/Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p. 19. – Os grifos e negritos são meus!
[2] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Texto Base da Campanha da Fraternidade 1988 (“Ouvi o Clamor deste Povo”), nº 92 – os grifos são meus!
[3] HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 10ª ed. – Rio de Janeiro: DP & A, 2005; FERREIRA, Ricardo Franklin, Afrodescendente: Identidade em Construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2004
[4] PIRES, Thula Rafaela de Oliveira. Criminalização do racismo: entre política de reconhecimento e meio de legitimação do controle social sobre negros. Brasília: Brado Negro,2016.
[5] Pontifícia Comissão de Justiça e Paz. A Igreja ante o racismo. (Coleção Documentos Pontifícios, nº 226), Petrópolis RJ: Vozes, 1988